quinta-feira, 12 de novembro de 2009

O mar

Texto cheio de bonitezas da minha amiga e companheira de leituras, Lidi Nunes. Esta que, ao elogiar a minha prosa poética, dizia não saber fazer a sua. Mal sabia ela que, na mentira, o nariz cresce.



Nunca fui capaz de compreender a imensidão do mar. Diante dele, sou toda fascinação. Sempre que o contemplo, penso na existência de Deus. Aquele azul não pode ser fruto de mãos humanas. Deixo-me envolver, de tal modo, por suas ondas, que imagino, um dia, entregando-me a elas, querendo entender os seus mistérios. Os meus amigos acham essa idéia ridícula e, temerosos, não querem que eu ande mais pela praia. Não adianta. Não consigo deixar de amar, o mar. Trancada em meu quarto, choro. O mar, então, está em mim. E transborda.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Dor de pedra


São tantas coisas na minha cabeça... Há dias tenho tantas coisas na minha cabeça... Eu achava que tinha tantas coisas na minha cabeça... antes... quando as coisas eram apenas coisas. Hoje elas têm nomes e razões. Deixaram de ser coisas, simplesmente. São tomaras e oxalás. Tomara que a minha testa não finde o seu dia franzida. Oxalá que meus ombros deixem de lado essa dor de pedra.
em.dor.fina: 1/4 de século.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Exequibilidade

Lembro-me do dia em que você chegou aqui em casa. Um rapazinho desconfiado, salvo do vizinho, que não sabia cuidar de amigos. Não demorou muito e fez do nosso o seu espaço. Corria de um cômodo a outro, com a língua de fora. Você parecia um sorriso. E o seu focinho gelado, quando tocava em mim, logo era acompanhado de uma lambida, um beijo de gratidão. Nas horas de pique-esconde, eu me escondia atrás das portas, enquanto você... um, dois, três... não, você não contava. Eram as suas patas largas se aproximando e... bu! Lá ia em disparada, depois do susto, bater que tinha me encontrado. Respiração ofegante, língua de fora, cheiro de xampu, todo garboso.

Um dia gritaram que você andava com o focinho sujo de terra, que estava colhendo todas as rosas do jardim etc. E eu passei a não ver mais a sua cara de sorriso. Porque no espaço que te sobrou, entre o tapete e os seus dois pratos, não cabia mesmo gratidão. Bradei que aquilo era absurdo, gritei pela sua liberdade de ir e vir. Em vão. Mandaram-me calar, que eu não era dona do meu nariz. Não ser dona do nariz deve ser tão chato quanto não ter mais terra no focinho, quanto não colher mais flores.

Hoje eu vim te dizer que eu também perdi a minha liberdade de ir e vir. Que também me sinto com uma coleira no pescoço. E eu sei o quanto é triste desacostumar-se. É mais triste quando você se esquece da coleira e parte em disparada, como quem quer chegar a um costume antigo e... paf! aquilo quase te rasga a garganta, te rasga o sorriso. Aquilo te deixa sem graça. Eu também não caminho mais pela casa como antes. E nas horas de pique-esconde é dentro de mim que eu me escondo. Ando cheia de portas. Mas não há mais ninguém para contar. Um, dois, três... são os ponteiros do relógio. É o som do meu silêncio. As flores que colhíamos, guardo-as ainda comigo. Secas. Pétalas são lembranças de momentos que perderam a cor.

E agora tenho eu também um pequeno espaço, onde mal cabe o meu nariz, que, alías, nem é meu. E entre meus tapetes e meus pratos, não cabe mesmo a minha identidade. E resta-me qualquer sensação, qualquer sentimento... Restam-me ponteiros sem horas e nomes quaisquer. A grandeza virou qualquer coisa. Pode chamá-la do que quiser. Um dia desses, ouvi um nome bem interessante: exequibilidade. Não sabia o que era isso. Hoje eu sei. E sei até o seu antônimo. Colher flores, por exemplo, é inexequível.

em.dor.fina: espinhos nas mãos.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Provação

Você tem razão, mãe. Eu sou uma provação. Gosto de alguns sabores que eu mesma provo em mim. Mas hoje foi o dia em que eu me reprovei. Hoje eu errei os cálculos da minha fraca matemática, não pensei nas melhores palavras do meu forte português nem posicionei bem a minha mais interna filosofia. Hoje, mãe, eu não lembrei daquela bonita história, tampouco recordei que na frente da palavra ciência também cabe um “p” e um “a”. Meu pai tinha razão: tenho dificuldades em geografia. Não é fácil achar o norte. Nas brincadeiras de criança, aprendi que, no jogo de amarelinha, o céu era o norte. Ainda prefiro acreditar nesse ponto de vista. Porque tinha um tal de inferno, pra onde a gente ia quando chegava no céu. E depois voltava para o céu. E de novo para o inferno. Nunca entendi aquele vai e vém. Nunca aprendi o porquê daquilo. Hoje eu esqueci tantas coisas em tão pouco tempo... Você sempre me pediu, mãe, que eu não falasse com estranhos. E hoje eu deixei que uma estranha falasse por mim. É que por alguns segundos deu um branco e eu esqueci essas coisas todas. Perdi a lógica, faltei com a palavra, não fui sábia. Fiz pouco do contexto. Não analisei o conhecimento. Aí fui reprovada. Aliás, não foi isso. Eu que me reprovei. Hoje eu me reprovei, mãe. E eu tinha esse gosto salgado de agora, essa vergonha. E foi tão ruim, que a próxima vez que eu me provar, eu quero ter gosto de coisa doce. De chocolate, de pirulito, de beijo, dessas coisas. Quero ter gosto de brisa e de sorriso na próxima vez que me provarem. Gosto de adição, de concordância, de sapiência. Gosto de contos fantásticos, de coisa que agrada ao maior dos empíricos. Porque você tem razão, mãe. Eu sou uma provação.

em.dor.fina: mágoa no peito dói (por isso peço desculpas).

domingo, 30 de agosto de 2009

Bolhas de sabão e desejo

É um exercício constante. Chego em casa e paro em frente à minha coleção. Escolho uma. E bebo. Engulo todo o líquido, que desce ardendo pela minha garganta. Talvez seja a dor. Ou o sabão. As bolinhas, elas, o motivo pelo qual me embriago, saem uma a uma pela boca. Pequenas, grandes, médias. Torpe, vejo meus desejos. Coloridos, leves, transparentes, bonitos, eles voam. Vão para o alto. Cada um com a sua bolinha. E eu, parada, tonta, entrego-me àquela dança. E rio. E quanto mais rio, mais bolinhas me atravessam a garganta. E dançam. E depois estouram-se todas no ar. Porque vem a sede. E a água serve apenas para diluir os desejos que não se pode sentir só. E a dança que não se baila só. Tampouco o riso, que, quando dado só, perde a graça com o tempo. Que nem a bolinha, que antes de estourar fica cinza. E sem brilho. Pra sumir de cansaço.

em.dor.fina: sem graça

Texto publicado no Imagens e Palavras.

sábado, 29 de agosto de 2009

Autodescrição

Não me pergunte quem sou eu. Não tenho competência para responder-te. E se tivesse, seria eu a única a fazê-lo. Não sei quem eu sou, mas sei quantas habitam em mim. Uma dualidade. O que não é o mesmo que contradição.

Há aquela que luta e dá forças à que procrastina. A que ri da cara da que chora. A ingênua que aprende com a esperta a entender as ironias da vida que compartilham. E quando uma cai, a outra, durona, empresta seu coração pétreo às lágrimas calcificantes.

Não as julgo. Aprendo com elas. Forças, fraquezas, irritantes manias ou as risadas mais gostosas. Compartilhamos todas. E seguimos. Apontamos o norte, tiramos as pedras do caminho e, por vezes, tropeçamos na danada da pedra. Não dá tempo mesmo de descansar as retinas fatigadas, Carlos. E lá vamos nós, com nossos óculos vermelhos, nosso livro por debaixo do braço, por dentro das bolsas, sempre cheias, tão pouco práticas, essa promessa nunca cumprida, a de sermos pragmáticas. Nossas rimas descabidas, nossos fracos versos, que escorrem das nossas unhas vermelhas. Essas que você encontra felinamente afiadas, pra arranhar não as suas costas, mas a sua cara, caso invente de abrir a boca na hora errada, no dia errado... Ah, nossa TPM, nosso chocolate, nossa impaciência! E temos todas também um sorriso de Capitu, de gato de Alice, também um sorriso discreto de canto, um olhar atento de canto, um amasso apertado no canto... das paredes que borramos de tinta. Com pincéis, com várias cores que nos descrevem... ama, escrava, engenho(sa) cana... e damos as mãos, as duas, as três, tantas, tantas... e dançamos a ciranda das nossas intrínsecas coerências.

em.dor.fina: difícil exercício de Língua Portuguesa VI

"h" calcificado

Zombaram do meu "h".
Pisaram nele.
Esmagaram-no.
O "h" petrificou.

em.dor.fina: minhas palavras não são mais pra você...

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

E agora, Zé?

Eu não sei pra onde ela foi, Zé.
Eu só sei que quando essa outra aparece,
eu lembro dela.
E dói tanto tanto,
que eu pareço uma criança
num acesso ao pranto
com uma formiga grudada no dedinho do pé.

em.dor.fina: chiclete de canela com gosto de soro fisiológico.

Vamo brincá de autista?

Vamo brincá de autista?
Que é isso de se fechá no mundão de gente
e nunca mais ser cronista?
Bom dia, leitor. Tô brincando de ilha.

Hilda Hilst

em.dor.fina: autopreenchimento, pra não sobrar espaço pra você.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A capa


Ele ficava lá, entre tantos outros vinis. Era o meu preferido. E eu não conhecia uma música sequer. Não o escutava. Nunca o fiz. Aquele era o meu disco proibido. Quando me sabia sozinha, logo corria para a estante. Dedilhava um a um até encontrá-lo. Não era meu interesse saber o que ele tocava. Era da capa que eu gostava. Aquela quentura...

Naquele quadrado de fundo branco tinha um homem e tinha também uma mulher de cabelos lisos, que eram curtos e pretos. A blusa descida no ombro. E no rosto, um olhar baixo, um sorriso de canto. Seus dedos eram finos. Eu gostava de observar o modo como ela segurava o próprio seio. Não me pergunte sobre o homem. Dele pouco sei: ele ficava de costas, mamando no seio dela.

Depois de alguns anos, não sei mais onde aquele disco está (já não há vinis para dedilhar). Mas sei que continua sendo o meu preferido. Hoje entendo o sorriso daquela mulher. E também aquela quentura. E se você me perguntar sobre o homem, eu te direi que entendo um pouco mais sobre ele também: um dia eu farei uma foto com o olhar baixo, o sorriso de canto, dedilharei meu seio e serei eu a capa do disco do Erasmo Carlos.

em.dor.fina: vontade infantil ou o momento que perdurou.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O ano em que aprendi a furtar


Roubo copos dos bares.
E livros das bibliotecas.
Nos jardins das casas vizinhas está sempre faltando uma flor.
Nos álbuns, observo retratos em preto e branco.
(Há uma fotografia vermelha em minha carteira)
Sou uma ladrona disfarçada.
Cometo grandes furtos:
bombons dos baleiros que rangem,
bicicletas,
brisas,
borboletas
e batimentos,
que enfraquecem com o tempo e são enterrados nos baleiros.
Nas lojas, encontro sutiãs reforçados,
que seguram o peso do meu peito.
Quem me conhece nem imagina que assalto sonhos na madrugada:
minha insônia me traz muita utilidade.
Quem me conhece nem imagina
que a foto vermelha é minha maior roubada.

em.dor.fina: cicatrizando pontos de um furto mal planejado.


(inspirada também pelas palavras da *aeronauta - wwwaeronauta.blogspot.com)

Íssima, íssima, íssima...




















Não, Álvaro, não é um supremíssimo cansaço o que sinto.
É uma extremíssima (íssima, íssima, íssima) vontade que me assola a alma. Como uma doença.

em.dor.fina: não tô pra ninguém; nem pra mim...

sábado, 8 de agosto de 2009

Partitura de uma vontade menor

O que há é um papel em branco. Como brancas estão também as minhas pernas, os meus seios, o meu sexo. Mas não esperava o teu igual a minha vã expectativa. Nem teu corpo, tua língua ou vagos movimentos. É um piano ao fundo que inutilmente preenche agora cada poro por onde teus dedos não deslizaram. E abaixa o meu olhar que renega cada detalhe que eu poderia ser incapaz de notar. E abre meus ouvidos para as incompreensíveis palavras que não foram ditas. E o que fica é esse quente desassossego. E o que fica são essas notas que fazem de ti partitura de uma vontade menor.

em.dor.fina: muitas semibreves no meu pentagrama