
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
O mar

sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Dor de pedra

quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Exequibilidade
Lembro-me do dia em que você chegou aqui em casa. Um rapazinho desconfiado, salvo do vizinho, que não sabia cuidar de amigos. Não demorou muito e fez do nosso o seu espaço. Corria de um cômodo a outro, com a língua de fora. Você parecia um sorriso. E o seu focinho gelado, quando tocava em mim, logo era acompanhado de uma lambida, um beijo de gratidão. Nas horas de pique-esconde, eu me escondia atrás das portas, enquanto você... um, dois, três... não, você não contava. Eram as suas patas largas se aproximando e... bu! Lá ia em disparada, depois do susto, bater que tinha me encontrado. Respiração ofegante, língua de fora, cheiro de xampu, todo garboso.Um dia gritaram que você andava com o focinho sujo de terra, que estava colhendo todas as rosas do jardim etc. E eu passei a não ver mais a sua cara de sorriso. Porque no espaço que te sobrou, entre o tapete e os seus dois pratos, não cabia mesmo gratidão. Bradei que aquilo era absurdo, gritei pela sua liberdade de ir e vir. Em vão. Mandaram-me calar, que eu não era dona do meu nariz. Não ser dona do nariz deve ser tão chato quanto não ter mais terra no focinho, quanto não colher mais flores.
Hoje eu vim te dizer que eu também perdi a minha liberdade de ir e vir. Que também me sinto com uma coleira no pescoço. E eu sei o quanto é triste desacostumar-se. É mais triste quando você se esquece da coleira e parte em disparada, como quem quer chegar a um costume antigo e... paf! aquilo quase te rasga a garganta, te rasga o sorriso. Aquilo te deixa sem graça. Eu também não caminho mais pela casa como antes. E nas horas de pique-esconde é dentro de mim que eu me escondo. Ando cheia de portas. Mas não há mais ninguém para contar. Um, dois, três... são os ponteiros do relógio. É o som do meu silêncio. As flores que colhíamos, guardo-as ainda comigo. Secas. Pétalas são lembranças de momentos que perderam a cor.
E agora tenho eu também um pequeno espaço, onde mal cabe o meu nariz, que, alías, nem é meu. E entre meus tapetes e meus pratos, não cabe mesmo a minha identidade. E resta-me qualquer sensação, qualquer sentimento... Restam-me ponteiros sem horas e nomes quaisquer. A grandeza virou qualquer coisa. Pode chamá-la do que quiser. Um dia desses, ouvi um nome bem interessante: exequibilidade. Não sabia o que era isso. Hoje eu sei. E sei até o seu antônimo. Colher flores, por exemplo, é inexequível.
em.dor.fina: espinhos nas mãos.
sexta-feira, 4 de setembro de 2009
Provação
Você tem razão, mãe. Eu sou uma provação. Gosto de alguns sabores que eu mesma provo em mim. Mas hoje foi o dia em que eu me reprovei. Hoje eu errei os cálculos da minha fraca matemática, não pensei nas melhores palavras do meu forte português nem posicionei bem a minha mais interna filosofia. Hoje, mãe, eu não lembrei daquela bonita história, tampouco recordei que na frente da palavra ciência também cabe um “p” e um “a”. Meu pai tinha razão: tenho dificuldades em geografia. Não é fácil achar o norte. Nas brincadeiras de criança, aprendi que, no jogo de amarelinha, o céu era o norte. Ainda prefiro acreditar nesse ponto de vista. Porque tinha um tal de inferno, pra onde a gente ia quando chegava no céu. E depois voltava para o céu. E de novo para o inferno. Nunca entendi aquele vai e vém. Nunca aprendi o porquê daquilo. Hoje eu esqueci tantas coisas em tão pouco tempo... Você sempre me pediu, mãe, que eu não falasse com estranhos. E hoje eu deixei que uma estranha falasse por mim. É que por alguns segundos deu um branco e eu esqueci essas coisas todas. Perdi a lógica, faltei com a palavra, não fui sábia. Fiz pouco do contexto. Não analisei o conhecimento. Aí fui reprovada. Aliás, não foi isso. Eu que me reprovei. Hoje eu me reprovei, mãe. E eu tinha esse gosto salgado de agora, essa vergonha. E foi tão ruim, que a próxima vez que eu me provar, eu quero ter gosto de coisa doce. De chocolate, de pirulito, de beijo, dessas coisas. Quero ter gosto de brisa e de sorriso na próxima vez que me provarem. Gosto de adição, de concordância, de sapiência. Gosto de contos fantásticos, de coisa que agrada ao maior dos empíricos. Porque você tem razão, mãe. Eu sou uma provação.
domingo, 30 de agosto de 2009
Bolhas de sabão e desejo
É um exercício constante. Chego em casa e paro em frente à minha coleção. Escolho uma. E bebo. Engulo todo o líquido, que desce ardendo pela minha garganta. Talvez seja a dor. Ou o sabão. As bolinhas, elas, o motivo pelo qual me embriago, saem uma a uma pela boca. Pequenas, grandes, médias. Torpe, vejo meus desejos. Coloridos, leves, transparentes, bonitos, eles voam. Vão para o alto. Cada um com a sua bolinha. E eu, parada, tonta, entrego-me àquela dança. E rio. E quanto mais rio, mais bolinhas me atravessam a garganta. E dançam. E depois estouram-se todas no ar. Porque vem a sede. E a água serve apenas para diluir os desejos que não se pode sentir só. E a dança que não se baila só. Tampouco o riso, que, quando dado só, perde a graça com o tempo. Que nem a bolinha, que antes de estourar fica cinza. E sem brilho. Pra sumir de cansaço.
em.dor.fina: sem graça
Texto publicado no Imagens e Palavras.
sábado, 29 de agosto de 2009
Autodescrição
"h" calcificado
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
E agora, Zé?
Vamo brincá de autista?
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
A capa

Ele ficava lá, entre tantos outros vinis. Era o meu preferido. E eu não conhecia uma música sequer. Não o escutava. Nunca o fiz. Aquele era o meu disco proibido. Quando me sabia sozinha, logo corria para a estante. Dedilhava um a um até encontrá-lo. Não era meu interesse saber o que ele tocava. Era da capa que eu gostava. Aquela quentura...
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
O ano em que aprendi a furtar

Roubo copos dos bares.
Íssima, íssima, íssima...

sábado, 8 de agosto de 2009
Partitura de uma vontade menor
O que há é um papel em branco. Como brancas estão também as minhas pernas, os meus seios, o meu sexo. Mas não esperava o teu igual a minha vã expectativa. Nem teu corpo, tua língua ou vagos movimentos. É um piano ao fundo que inutilmente preenche agora cada poro por onde teus dedos não deslizaram. E abaixa o meu olhar que renega cada detalhe que eu poderia ser incapaz de notar. E abre meus ouvidos para as incompreensíveis palavras que não foram ditas. E o que fica é esse quente desassossego. E o que fica são essas notas que fazem de ti partitura de uma vontade menor.
em.dor.fina: muitas semibreves no meu pentagrama

